Liberdade em pedais
Domingo, 20 de Junho de 1976
Aniversário do Manel. De manhã, como era previsível, apareceu com a boa disposição de sempre, intacta, quase militante. Não lhe dei os parabéns por fazer anos — isso é um detalhe administrativo. Fiz questão de os dar porque era, para todos os efeitos, o primeiro dia de férias. O dia em que a vigilância dos pais afrouxa e a rua volta a ser território livre. O verdadeiro presente era esse: poder sair sem destino e sem relógio.
Saímos. De bicicleta, como manda a tradição. Pedalámos até ao Monte, esse lugar que já nos conhece os silêncios e as conversas difíceis. Falámos da relação falhada dele com a Ana Maria, irmã da Dila. Falámos do que custa não ser correspondido, da humilhação silenciosa de gostar sozinho. O Manel estava magoado, mas lúcido. E essa lucidez dói mais.
Acabámos por chegar à mesma conclusão de sempre, amarga e previsível: os motivos eram os mesmos da irmã. Família. Religião. Grades invisíveis mas eficazes. Não lhes era permitido escolher livremente a origem da sua felicidade. O Manel ainda equacionou a hipótese de ele se aproximar das Testemunhas de Jeová, como se a fé pudesse ser uma saída ou um último gesto de desespero. Mas fomos realistas. Depois de tantas restrições impostas pelos pais, dificilmente haveria recuo. Quem aprende a obedecer desaprende a escolher.
À tarde fiquei sozinho em casa. Tentei voltar ao texto sobre o sonho, mas a conversa da manhã tinha-me roubado a inspiração. As palavras recusavam-se a alinhar. Quando a realidade entra de rompante, a ficção recua. Não forcei. Há dias em que escrever não é possível, e isso também é uma forma de honestidade.
Deixei o dia apagar-se lentamente na noite. Fui-me deitar com a esperança simples de que o sono trouxesse outro sonho. Talvez mais claro. Talvez mais cruel. Ou talvez apenas silêncio. Também isso, às vezes, é revelador.
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