O vazio depois do toque de saída

Sábado, 19 de Junho de 1976

Último dia de aulas. Último dia do caos nos transportes. O país continua a tropeçar, mas para mim algo termina ali, de forma seca, quase brusca. Fecha-se uma porta conhecida e do outro lado não há mapa, nem seta, nem promessa. Começam as férias — palavra grande demais para o que sinto. Não há destino, não há objectivos, não há esperança clara no futuro. Apenas tempo. E o tempo, quando está vazio, pesa.

O sonho do dia anterior continua colado à memória, insistente como um eco que não encontra parede onde morrer. Decido escrever sobre ele. Não para o explicar — ainda não — mas para o fixar. Passo boa parte da tarde nesse exercício estranho e revelador. Começo pela impressão que deixou em mim, pelo rasto emocional, mais do que pelas imagens. Um rascunho. Imperfeito. Provisório. Mas necessário. Escrever para não esquecer é uma forma de resistência contra o apagamento.

Enquanto escrevo, percebo o quanto consigo divagar. O sonho abre portas, corredores, desvios. Cada frase puxa outra, cada ideia convoca uma dúvida. Descubro, quase sem querer, que a escrita é um veículo poderoso para interpretar pensamentos — ou, pelo menos, para os tornar habitáveis. Não resolve, mas organiza. E isso já é muito.

O dia escorre devagar, como se o relógio tivesse decidido experimentar outra cadência. À noite, fechado no refúgio do meu quarto, dou-me conta de algo simples e perturbador: escrever sobre o que me vai no espírito não é um passatempo. É uma necessidade que começa a ganhar forma. Já não é rotina. Já não é apenas registo.

Talvez seja isto o princípio de um destino. Ainda sem nome. Ainda sem garantias. Mas reconhecível. Como se, no meio do vazio destas férias sem rumo, algo estivesse finalmente a apontar uma direcção. Mesmo que eu ainda não saiba segui-la.


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