O futuro bate à porta em sonho
Sexta-feira, 18 de Junho de 1976
A manhã ficou suspensa por causa de um sonho. Não daqueles que se dissipam com o primeiro café — este ficou. Colou-se a mim como humidade na pele. Era fantasia, claro. Ficção fabricada pelo sono. Ainda assim, demasiado nítida para ser ignorada.
No sonho havia futuro. O meu futuro. Namoro, casamento, filhos — palavras grandes demais para a minha idade, conceitos que ainda deviam estar guardados numa gaveta distante. Acordei com uma sensação estranha, meio fascínio, meio receio. Não me apeteceu analisá-lo em excesso. Há coisas que, se olhadas de frente, perdem o mistério e ganham peso a mais. Limitei-me a registá-lo, como quem assinala no mapa um lugar perigoso: estive aqui.
Fiquei a pensar no que o meu subconsciente me estaria a dizer. Ou talvez apenas a ensaiar. Como quem experimenta um fato que ainda não é suposto vestir. Um pouco assustador, sim. Mas também inevitável. Crescer não pede licença.
O resto do dia foi contaminado por essa emoção difusa. Nada aconteceu de verdadeiramente novo, mas tudo pareceu ligeiramente deslocado. A rotina manteve-se, obediente, mas por baixo dela corria um fio de inquietação silenciosa. Uma mistura estranha de curiosidade e peso, como se o tempo tivesse decidido lembrar-me que não anda para trás.
Foi um dia feito mais de sensação do que de acontecimentos. E às vezes é isso que mais marca. Porque o corpo segue a rotina, mas a cabeça já foi dar uma volta mais longe.
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