À sombra das ideias

Quinta-feira, 17 de Junho de 1976

Um dia sem aulas. Logo aí o tempo respira de outra maneira. O calor da manhã empurra-me para fora de casa e acabo no Rio de Couce com as minhas irmãs. A água corre sem pressa, as sombras fazem pactos silenciosos com quem as procura, e encontro ali um recanto onde o mundo abranda o suficiente para caber dentro de um livro.

Leio. Um romance de amores incompreendidos, desses em que duas pessoas se querem mas não se podem querer. A diferença de classes, a posição social, o peso invisível das convenções a empurrar os sentimentos para fora do caminho. Fecho o livro por momentos e sorrio com ironia: não é ficção do século XIX, é um espelho polido do século XX. Mudam-se os cenários, as palavras, os figurinos — o mecanismo é o mesmo. As gerações passam, o enredo repete-se com uma teimosia quase cómica. Se não fosse trágica.

A tarde escorre tranquila, passada em casa, na frescura das paredes que conhecem bem o silêncio. Nada de especial acontece, e isso é um acontecimento em si.

A noite, porém, desloca o eixo do dia. Acompanho o meu pai às minas de S. Pedro. Encerradas há anos, feridas abertas na terra, agora transformadas em centro de actividade do Partido Comunista. Há ali ecos de vozes antigas e novas convicções a ocupar o vazio. Caminho por aquele espaço com curiosidade contida. Pela primeira vez, a política deixa de ser um ruído distante e começa a ganhar contornos, sentido, peso real.

Não sei ainda o que penso de tudo isto. Mas sei que já não me é indiferente. E isso, goste-se ou não, é o princípio de qualquer coisa.


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