A repetição como aprendizagem
Quarta-feira, 16 de Junho de 1976
A greve continua a pairar sobre a cidade como um nevoeiro teimoso. Já não surpreende ninguém. Habitua-se o corpo, mas a cabeça resiste. O dia começa sem sobressaltos, com essa estranha sensação de que tudo está suspenso e, ao mesmo tempo, condenado a repetir-se.
De tarde vou para o liceu. As aulas decorrem dentro da normalidade possível, que é uma normalidade torta, mas funcional. Há algo de reconfortante nesta previsibilidade: o quadro, o giz, as cadeiras alinhadas, as matérias que avançam devagar mas avançam. É aqui que a monotonia ganha utilidade. Cada explicação, cada exercício, é um pequeno tijolo num futuro que ainda não sei bem como será, mas que sei que exige esforço agora. Não há heroísmos. Há estudo. E isso basta.
O regresso a casa faz-se com o cansaço acumulado, não do corpo, mas da atenção. Um cansaço mais difícil de sacudir. A noite cai sem acontecimentos dignos de registo, e talvez por isso mesmo mereça ser registada. Nem todos os dias precisam de ser especiais para serem necessários.
Deito-me com a sensação clara de que estou a atravessar um tempo de preparação. Como quem afia uma lâmina que ainda não sabe quando terá de usar. Amanhã será outro dia. Diferente? Talvez não. Mas é assim que as coisas se constroem. Um dia igual de cada vez.
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