O vento como parêntesis
Terça-feira, 15 de Junho de 1976
A greve dos transportes continua a esticar os nervos da cidade. Tudo anda aos solavancos, como se o tempo tivesse sido mal afinado. O meu pai leva-me de motorizada para o liceu. Não é apenas um transporte; é uma fuga breve. A velocidade, o vento a bater na cara, os zig-zags entre carros impacientes criam um intervalo raro — um parêntesis onde as preocupações ficam para trás, encolhidas, quase ridículas. Ali, por longos minutos, o mundo simplifica-se: estrada, motor, equilíbrio.
Mas a escola tem o dom de puxar-me de volta à ordem natural das coisas. Mal entro no liceu, tudo retoma o seu ciclo previsível. Aulas, horários, vozes de professores que parecem repetir-se desde sempre. Ainda assim, esse ritual serve de âncora. As aulas distraem-me da monotonia do dia e dão-lhe um sentido prático. Estudar, passar de ano — não é um sonho, é uma necessidade. O foco é esse, directo, sem romantismos. O resto pode esperar.
Ao fim da tarde, o karaté fecha o dia como deve ser. O corpo cansado, os músculos a protestar, a mente finalmente em silêncio. É um cansaço limpo, honesto, que não pesa — alivia. Saio do treino vazio do que não interessa, cheio apenas do essencial. E, às vezes, isso chega.
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