Tempestade Urbana

Segunda-feira, 14 de Junho de 1976

O dia começou com o cheiro a confusão. A greve dos transportes transformou a cidade num tabuleiro de nervos e buzinas. Ir para o liceu tornou-se uma aventura por ruas congestionadas, cheias de pessoas com olhares crispados, mãos a gesticular em frustração. Cada passo parecia desafiar o caos; cada olhar, uma promessa de tempestade.

No liceu, a rotina habitual perdeu-se no ritmo acelerado das chegadas atrasadas, dos corredores cheios de passos apressados, dos professores que tentavam manter alguma ordem enquanto a irritação se espalhava como fogo. A sensação era de ser uma barata tonta, correndo sem destino, empurrado pelos acontecimentos, sem tempo para pensar, apenas para agir.

Mas havia uma recompensa escondida: quando finalmente regressei a casa, o silêncio do meu quarto caiu sobre mim como um manto. Longe de tudo e todos, pude respirar, sentir o corpo desacelerar e o coração acalmar. A correria, o caos, a irritação alheia — tudo isso ficou lá fora. No final, o dia mostrou-me que, por vezes, o silêncio é o prémio mais valioso que se pode alcançar.


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