Entre livros e sonolência

Domingo, 13 de Junho de 1976 

Hoje domingo teve outra cor. Ao contrário do habitual marasmo, passei a manhã a estudar matemática. Cada equação parecia resistir-me, mas era uma resistência silenciosa, quase reconfortante, como se a concentração fosse uma ilha num oceano de tédio. Antes do almoço, peguei no nunchaku e treinei artes marciais. Os movimentos ritmados, o som da madeira a bater o ar, deram-me um sentido de ordem que a manhã de números não conseguira oferecer.

A tarde levou-me até casa do Benjamim. Ele tocava violão, e eu deixei-me levar pelo som. Não era apenas música: era conversa sem palavras, partilha sem exigências, o silêncio que se faz companhia. Por instantes, esquecemo-nos do mundo lá fora.

À noite, fui ao cinema com o meu pai. As luzes apagadas, a história a desfilar na tela de fundo, e eu a sentir que, apesar de tudo, os dias se entrelaçam de maneira curiosa, tecendo momentos que, à primeira vista, parecem banais, mas guardam pequenas felicidades.

Foi mais um domingo com uma narrativa que, à superfície, poderia parecer miserável. Mas sob a monotonia, havia respirações, sons, e a leve sensação de que cada pequeno gesto tinha peso — mesmo que eu só agora o perceba.


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