Dia sem eira nem beira

Sábado, 12 de Junho de 1976 

O dia começou com as aulas de manhã. O liceu correu sem sobressaltos, os professores repetiam a rotina habitual e eu percorria os corredores com passos silenciosos, sentindo o ritmo quase mecânico das horas. Cada sala, cada quadro, cada sombra parecia querer arrastar os meus pensamentos para longe, para longe de qualquer entusiasmo.

Quando as aulas terminaram, a tarde abriu-se diante de mim como um espaço imenso e vazio, sem contornos nem objetivos. Fiquei em casa, deitado no sofá, os olhos perdidos no tecto, escutando o silêncio absoluto da casa, só quebrado pelo tique-taque do relógio, que parecia contar de forma exagerada cada minuto de tédio. Não houve visitas, nem convites, nem um livro que me prendesse. Até os meus próprios pensamentos pareciam ter decidido abandonar-me, deixando apenas um eco morno de vazio.

Caminhei pela casa com passos que não levavam a lado algum, senti o calor que não conforta e a luz que não ilumina. Olhei pela janela e observei a rua deserta, como se o mundo inteiro tivesse decidido desaparecer por algumas horas, deixando-me sozinho com a sensação de inutilidade do tempo.

Um dia completamente sem eira nem beira, que me lembrou como a monotonia pode pesar quando não há nada que a rompa. No fim, sentei-me à mesa, aceitei a sua presença, como se fosse uma velha conhecida que insiste em permanecer. Um lembrete silencioso de que nem todos os dias precisam de aventuras ou emoção para existirem; há dias que simplesmente existem — vazios, planos, quietos, e ainda assim necessários para nos ensinar a valorizar os que não o são.


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