Um dia que passou à minha revelia
Hoje acordei cedo, quase com culpa de ainda estar a dormir. Saí de casa com a pressa mansa de quem não tem pressa nenhuma, mas a meio do caminho para a paragem do trólei alguma voz interior — talvez a disciplina, talvez o medo de matemática, talvez apenas um instinto sem poesia — fez‑me voltar para trás.
Regressei a casa como quem desfaz um gesto. Fechei‑me no quarto e estudei matemática, com aquela fidelidade cansada de soldado que cumpre ordens sem acreditar nelas. Só mais tarde soube que, afinal, não houvera aulas de manhã. Sorri por dentro. Há momentos assim: lutamos contra moinhos sem sabermos que o vento já tinha mudado de direcção.
De tarde, tudo correu no trilho habitual. Ao fim do dia fui para a Academia com o Benjamim. Pelo caminho cruzámo‑nos com a Aida, que vinha da escola. Juntou‑se a nós e seguimos os três, como uma pequena procissão sem mistério. Falámos do nada — esse nada imenso que enche as tardes adolescentes — e chegámos ao ginásio, onde cada um voltou ao seu papel de sempre.
Não houve aventuras. Não houve epifanias. Não houve sequer uma sombra de romance. Foi apenas um dia. Um dia que passou por mim sem pedir licença, como um desconhecido na rua.
E, no entanto, aqui está ele — escrito, guardado, vivido. Talvez o sentido esteja mesmo aí: nos dias pequenos que seguram os grandes, como pedras anónimas num muro antigo.