O tempo suspenso
Segunda-feira, 12 de Julho de 1976
Hoje deixei o corpo decidir por mim. A mente foi atrás, cansada de mandar. Esqueci-me das horas como quem se esquece de uma obrigação antiga. Levantei-me perto das onze, sem pressas, sem culpas imediatas. Pela primeira vez em muitos dias, permiti-me não ir ver o jornal. Um pequeno acto de desobediência silenciosa. O meu pai nada disse. E isso foi talvez pior. O silêncio dele vinha carregado de mau humor, espesso, espalhado pela casa como um aviso sem palavras.
Não me detive nisso. Aprendi que há silêncios que não se enfrentam — contornam-se.
De tarde, assim que pude, escapuli-me com o Manel. A decisão mantém-se firme: ser livre enquanto ainda posso, mesmo que em parcelas pequenas, quase clandestinas. Não fomos longe. Não foi preciso. Saltitámos entre as nossas casas como dois conspiradores domésticos: um pouco de música aqui, um jogo de damas ali, depois xadrez, como se o mundo se resumisse àquele tabuleiro previsível onde, ao contrário da vida, as regras são claras. Resultou. Ninguém me incomodou. Ninguém exigiu nada. Por algumas horas, fui apenas eu.
Quando chegou a hora de me deitar, encontrei a minha mãe na rotina que nunca falha: a passar a ferro, a remendar meias, concentrada como se aquele gesto fosse o centro do mundo. Havia ali uma calma antiga, quase sagrada. Fiquei a observá-la. E, sem pedir licença, as memórias vieram.
Vi-me criança, adormecido em cima das bacias cheias de roupa, embalado pelo cansaço e pelos cheiros. O vapor do ferro misturado com a humidade no ar. Aquele odor específico que não se esquece, porque não pertence ao nariz — pertence à alma. Tudo isso regressou de uma vez, sem aviso.
Abracei a minha mãe de repente. Do nada. Nunca lhe tinha dito que a amava. Nunca ninguém mo disse a mim. E, no entanto, aquela mulher colocava amor em tudo o que fazia, nos gestos mais simples, mais invisíveis. Não perguntou porquê. Limitou-se a aceitar o abraço, como sempre fez com tudo na vida: sem alarde, sem exigências.
Percebi então uma coisa com a clareza que só os momentos calmos permitem: o amor não se explica, não se declara, não se anuncia. Vive-se. Está nos gestos que não falam, nas rotinas que cuidam, nas mãos que remendam o que se gasta.
Fui para a cama mais leve. O mundo continua apertado, o futuro incerto, a pressão intacta. Mas hoje reencontrei uma raiz. E enquanto houver raízes, talvez ainda haja força para resistir ao que vem aí.
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