Entre ordens e ausências
Terça-feira, 13 de Julho de 1976
A manhã começou sem delicadeza.
— Levanta-te que tens de ir ver os anúncios no jornal!
A voz do meu pai não pedia, decretava. Levantei-me aborrecido, contrariado, como quem veste uma roupa que já não serve. Fiz o que me mandou, porque discutir cansa mais do que obedecer. O jornal voltou a ser aquele catálogo de vidas alheias, todas demasiado sólidas para mim. Não encontrei nada. Nem emprego, nem vontade. A frustração ficou comigo o resto da manhã, sentada ao meu lado como companhia indesejada.
Depois do almoço não resisti. Peguei no saco da Academia e saí de casa como quem foge de um incêndio invisível. Fui para a Biblioteca Municipal do Porto. Ali, finalmente, o tempo perdeu autoridade. Os minutos converteram-se em horas sem pedir licença, e eu deixei-me ficar. Li, pensei, esqueci-me de mim. O tempo não passou — voou. Ainda bem. Já não tinha paciência nem para o tempo, quanto mais para o resto.
Ao fim da tarde fui para a Academia. Esperava encontrar a Aida. Ela tinha ficado de me dar uma resposta ao bilhete que lhe entregara. Não apareceu. A ausência não pesou mais do que qualquer resposta negativa. A minha cabeça parecia presa num torno, apertada por dentro, prestes a rebentar. Treinei, mas sem alma. O corpo obedecia, a mente estava noutro lugar — num lugar vazio.
Depois de jantar fui com o meu pai ao café Santiago. Falámos com o Mazola, editor e redactor de um jornal de S. Pedro. Um homem prático, directo, desses que sabem o que querem do mundo. Convidou-me a escrever um artigo sobre artes marciais. Disse-o como quem atira uma boia. Aceitei. Disse que sim. Não por entusiasmo, mas por indiferença. O sim saiu-me automático, sem peso nem alegria.
O que eu queria, na verdade, era voltar para casa. Para o meu refúgio. Para longe de expectativas, convites, ordens e ausências. Queria silêncio. Queria paredes que não pedissem nada. Hoje tudo me aconteceu à volta, mas nada me tocou verdadeiramente.
Deitei-me com a cabeça cansada e o coração em suspenso. Há dias assim: cheios de coisas, vazios de sentido. Amanhã logo se vê. Eu, por agora, só quero fechar os olhos e desaparecer um pouco.
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