A anestesia dos dias
Quarta-feira, 14 de Julho de 1976
A rotina mantém-se. Levantar, ir ver o jornal, procurar anúncios que agora já nem parecem dirigidos a mim. Curiosamente, já quase não dói. A repetição tem este poder perverso: desgasta até o sofrimento. Sinto-me anestesiado, por fora e por dentro, como um condenado que já conhece o veredicto e apenas espera a data. Não há revolta. Também não há esperança. Há aceitação, e isso assusta-me mais do que a raiva.
Passei a manhã a ler, a escrever qualquer coisa sem grande convicção, a ouvir música como quem ouve chuva atrás de um vidro. Tudo entra, nada fica. As palavras já não me chamam, as melodias já não me levam a lado nenhum. O mundo fala, mas eu não respondo. Talvez nem esteja a ouvir.
De tarde apareceu o Manel. Sempre o Manel. A presença constante, fiel, quase obstinada. Saímos para um passeio curto, sem entusiasmo, sem conversa digna de registo. Fomos e voltámos pelo mesmo caminho, como se a própria rua confirmasse aquilo que sinto: não há avanço, apenas circulação.
De regresso a casa, o Monopólio ocupou o tempo que teimava em não passar. Compras, vendas, dinheiro de papel. Um jogo curioso para quem se sente cada vez mais fora do jogo real. Ainda assim, ajudou. Pelo menos ali as regras são claras e o acaso assume-se sem disfarces.
A noite chegou sem aviso. Dei por ela como se alguém tivesse apagado a luz devagar. Quando percebi, já era hora de me deitar. Não fiz balanços, não formulei desejos. Apenas fechei o dia como se fecha um livro que não está a interessar, mas que ainda não podemos largar.
Adormeci sem lutar. Amanhã será outro dia igual a este. E hoje, estranhamente, isso já não me assusta.
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