O peso manso dos dias
Quinta-feira, 15 de Julho de 1976
Os dias avançam em fila indiana, todos parecidos, todos cansados. Não trazem surpresas nem as prometem. De manhã cumpri a rotina já instalada como uma lei silenciosa: ir ver os anúncios no jornal. Já não é esperança, é hábito. Uma normalidade nova, seca, sem entusiasmo, mas eficaz a ocupar o tempo e a calar perguntas.
O Manel esteve comigo. Está sempre. É uma presença firme, dessas que não fazem barulho mas seguram paredes. Um amigo a sério, sem discursos nem heroísmos. A sua companhia tornou-se parte do funcionamento dos meus dias, como um relógio que não atrasa.
Hoje ouvi falar de um livro estranho. O livro de S. Cipriano. Chamam-lhe poderoso, perigoso até. Não sei se é fé, superstição ou simples medo antigo disfarçado de respeito. Dizem que não se lê por curiosidade, mas por necessidade. Fiquei intrigado. Desconfiado também. Há livros que prometem mais do que dão e outros que dão mais do que prometem. Este parece exigir prova: ler para crer. Talvez um dia. Por agora, fica a ideia a pairar, como tudo o resto.
O dia terminou sem sobressaltos. Nem bom, nem mau. Apenas mais um. E às vezes é isso que mais pesa.
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