Quando até o silêncio transpira
Sexta-feira, 16 de Julho de 1976
Não houve história. Houve calor. Um calor bruto, sem piedade, a esmagar as horas como se o tempo tivesse ficado colado ao alcatrão. As ruas vazias, sem vivalma, como se a cidade tivesse sido evacuada por ordem invisível. Nem passos, nem vozes, nem vida. Só o silêncio, espesso, a ocupar tudo.
De manhã, o jornal. Sempre o jornal. As letras pareciam mais lentas, cansadas de existir sob aquele sol. O Manel passou por cá, fiel como a sombra que ainda resiste junto às paredes. Falámos muito, palavras vazias apenas para preencher o tempo. Também as palavras suam quando o calor é assim.
O dia deixou-me uma sensação difícil de explicar, como se o corpo tivesse vivido mais do que a cabeça conseguiu acompanhar. O calor não foi apenas físico, foi um cerco. Apertou-me por fora e por dentro, roubou-me a vontade de reagir, de pensar, de desejar seja o que for. Tudo se reduziu ao essencial: respirar, aguentar, esperar que as horas passassem.
Ao fim da tarde veio o karaté. Em vez de libertação, foi mais sufoco. O suor não era esforço, era rendição. Cada movimento parecia acontecer dentro de um forno fechado. O ar pesado entrava nos pulmões como se pedisse desculpa por existir. Não houve espaço para disciplina nem para técnica, apenas resistência bruta. Saí de lá cansado de um cansaço estranho, sem glória, sem aprendizagem. Só desgaste.
A Aida apareceu. Sem história. Sem ruído. Uma presença quase neutra, como uma figura que atravessa o cenário sem alterar o enredo. Não provocou emoção nem rejeição. Estava ali, como o calor, como o dia, como tudo o resto: inevitável e passageira.
Esperei pela noite como quem espera salvação. Enganei-me. A noite chegou, mas o Verão não saiu. O calor manteve-se agarrado às paredes, à pele, ao pensamento que nem chegou a formar-se. Não houve tempo para reflectir, nem forças para revisitar sentimentos. A cabeça ficou vazia por excesso, não por falta.
Foi um dia que não deixou memória clara, apenas um rasto de exaustão. Como se tivesse sido vivido em silêncio interior. E talvez seja isso o mais estranho: não aconteceu nada, mas levou qualquer coisa de mim.
« Página anterior / Índice / Página seguinte »