O calor das horas vazias
Sábado, 17 de Julho de 1976
O sábado acordou pesado, abafado, como se o ar tivesse decidido não circular. O Verão instalara-se de vez, sem pedir licença, e tudo parecia acontecer em câmara lenta. As manhãs já não traziam novidade nenhuma. Levantar, comer qualquer coisa, folhear o jornal à procura de anúncios que não diziam nada sobre mim. Um ritual sem fé, repetido mais por obrigação do que por esperança.
Passei parte do dia entre a leitura e a escrita, mas sem verdadeira concentração. As palavras estavam lá, os livros também, mas eu não. Havia uma espécie de ausência em mim, um corpo presente e uma cabeça noutra latitude. Pensava pouco, sentia menos ainda. Não era tristeza. Era cansaço. Um cansaço fundo, daqueles que não se resolvem com sono.
De tarde, o Manel apareceu. O Manel aparece sempre quando o dia ameaça tornar-se insuportável. Não trouxe nada de especial, apenas a sua presença, que já era suficiente. Saímos para um passeio curto, sem destino nem conversa marcante. Caminhámos mais por hábito do que por vontade, voltámos pelo mesmo caminho, como se o mundo tivesse ficado demasiado pequeno para grandes desvios.
Jogámos Monopólio mais tarde. As notas falsas passaram de mão em mão, as ruas mudaram de dono, mas nada disso tinha importância. Era apenas uma forma de ocupar o tempo, de fingir normalidade, de não pensar demasiado no que faltava — ou em quem faltava.
O dia terminou sem sobressaltos, sem acontecimentos, sem marcas visíveis. Apenas mais um dia somado aos outros, igual e diferente ao mesmo tempo. Igual na forma, diferente no peso que deixou. Porque mesmo nos dias em que nada acontece, alguma coisa se acumula por dentro. E um dia, sem aviso, tudo isso há-de pedir para ser escrito.
Fechei o sábado assim: cansado, quieto, à espera de um domingo que talvez trouxesse menos calor — ou pelo menos uma ideia nova.
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