Quando a casa serve de abrigo

Domingo, 18 de Julho de 1976

A manhã nasceu preguiçosa, sem pressa nenhuma de ser vivida. Arrastou-se como um corpo cansado até à hora de almoço, feita de silêncios, pequenos gestos e pensamentos dispersos. Nada fazia prever que este domingo se destacaria dos outros. Tudo indicava que seria apenas mais um dia quente de Verão, desses que passam sem deixar rasto.

De tarde, porém, o dia partiu-se.

O Manel apareceu em minha casa irreconhecível. O rosto marcado, o corpo dorido, a postura de quem traz a violência ainda colada à pele. No primeiro instante não percebi. O Manel é incapaz de se meter em zaragatas. Afasta-se delas por instinto, como quem sabe que a força nunca resolve nada. Aquilo não fazia sentido.

Fez sentido depois.
Foi o pai.

Uma surra desmedida, injusta, cega. Uma confusão em que o nome do Manel surgiu pelo meio, sem culpa própria, mas suficiente para justificar a fúria de quem manda sem ouvir. Explicou-me tudo com calma, quase a pedir desculpa por existir. Doía-lhe o corpo, mas doía-lhe mais a humilhação. A injustiça pesa sempre mais do que os murros.

Ficou em minha casa até à noite. Não havia muito que fazer senão estar presente. Distraímo-nos como pudemos, conversas soltas, intervalos longos, tentativas de normalidade. Ontem tinham começado os Jogos Olímpicos de Montreal e hoje foram um verdadeiro elixir. O desporto como fuga, como anestesia, como promessa silenciosa de que o mundo também sabe ser justo, pelo menos dentro de um estádio.

Ao cair da noite, fiquei a pensar na dureza da autoridade paternal destes tempos. Uma autoridade que não dialoga, que não explica, que não escuta. Confunde respeito com medo, educação com castigo, poder com razão. Há pais que governam como juízes sem defesa possível. E filhos que aprendem cedo que o amor, quando imposto à força, deixa marcas que não se veem.

Este domingo ensinou-me isso sem querer ensinar.
E deixou-me a certeza de que, às vezes, a única coisa verdadeiramente justa que podemos fazer é abrir a porta e ficar.


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