Procura sem esperança
Segunda-feira, 19 de Julho de 1976
Acordei sem voz. Uma amigdalite roubou-me o pio e deixou-me este silêncio áspero, onde engolir dói como se fosse um castigo antigo. Falar é esforço, calar é resignação. Ainda assim, a piedade não paga contas nem cria futuros, por isso fui buscar o jornal. As páginas cheiram sempre a promessas falhadas. Procurei emprego como quem procura água num poço seco: por dever, não por esperança.
Depois do dia atribulado de ontem, o Manel tornou-se quase mobília da casa. Almoçou comigo, partilhámos o pouco e o suficiente. Saímos de bicicleta para o nosso passeio ritual. Pedalámos sem destino, fingindo que não procurávamos quem, na verdade, nos ocupava o pensamento inteiro. Não encontrámos ninguém. O costume. Há ausências que já nem fazem barulho.
De regresso, a tarde cumpriu-se sem vontade nem surpresa. Um tempo quente, desses que passam por nós sem deixar memória. À noite jantámos juntos, em silêncio mais falado do que qualquer conversa.
Quando o Manel se foi embora, levou no rosto aquilo que não disse. No corpo, os sinais evidentes de uma alma espremida. Conheço-lhe bem aquele andar pesado: é o peso de casa, daquilo que o espera e o corrói. Fiquei a vê-lo afastar-se, sem voz para o chamar, sem palavras para lhe valer. Às vezes a amizade é isto: assistir, impotente, à dor do outro. E continuar. Amanhã há mais jornal, mais silêncio, mais caminho.
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