O peso leve do que há-de vir

Terça-feira, 20 de Julho de 1976

A manhã cumpriu o seu papel sem imaginação: levantar tarde, ir buscar o jornal, passar os olhos pelos anúncios como quem passa os dedos por um mapa que não leva a lado nenhum. Procura-se trabalho, encontra-se silêncio. Não é derrota, é hábito.

De tarde fui ao liceu para tratar da matrícula. Fui, mas não cheguei. A cabeça andava noutro sítio e faltavam papéis. Faltam sempre papéis quando a cabeça está cheia de ar. Fiquei por ali, suspenso, como uma frase interrompida a meio. Amanhã será outro dia, dizem sempre os dias.

Para matar o tempo, refugiei-me na biblioteca municipal. Livros sabem esperar por nós. Não exigem documentos, apenas presença. Li sem urgência, só para que as horas se gastassem sozinhas, até chegar a altura de ir para a Academia.

E então a Aida apareceu. Do nada, como as coisas que não pedimos. Perguntei-lhe pela resposta ao meu bilhete. Disse-me que daria resposta brevemente. Não insistiu, não prometeu, não dramatizou. E eu também não. Sinceramente, não tenho pressa. O que tiver de ser, será. O resto é ruído.

Há dias assim: não acontecem, mas deixam rasto. Como pegadas leves num chão quente que amanhã o vento há-de apagar.


« Página anterior / Índice / Página seguinte »