Coisas de adultos
Quarta-feira, 21 de Julho de 1976
Um dia de encruzilhada, desses em que a vida pára no meio da rua e pergunta: vais para onde?
De manhã cumpri o ritual já automático de folhear anúncios no jornal. Letras pequenas, promessas grandes, quase todas ocas. Depois fui com o meu pai ao liceu tratar da matrícula. Assinei papéis como quem assina o futuro sem o ler. Saí de lá mais confuso do que entrei: estudar ou trabalhar? Ficar ou avançar? Talvez isto seja coisa de adultos — decidir sem saber bem porquê, mas com muita certeza aparente.
À tarde, o pensamento ficou pesado e pedi-lhe licença para sair. Fui com o Manel. Andámos sem destino, como de costume, só para sentir o corpo solto e a cabeça longe. Não procurávamos nada e, ainda assim, era exactamente isso que precisávamos. A liberdade, às vezes, é apenas andar sem relógio.
À noite fomos a casa do Benjamim. Conversámos. Rimos. Falámos de “coisas interessantes”. Tão interessantes que ficam por dizer. Nem tudo o que conta merece ser escrito — há segredos que servem apenas para confirmar que estamos vivos e curiosos. E chega.
O dia não resolveu nada. Mas também não piorou. E, honestamente, já não é pouco. Amanhã logo se vê. O futuro não foge — só gosta de fingir que sim.
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