Entre anúncios e estrelas

Quinta-feira, 22 de Julho de 1976

O dia nasceu igual aos outros, o que já começa a ser um traço de carácter. De manhã cumpri a obrigação de sempre: jornal aberto, olhos cansados, anúncios que prometem mundos e oferecem migalhas. Procuro trabalho como quem procura uma porta numa parede de nevoeiro. Sei que está lá, mas ainda não a vejo.

A indecisão continua sentada ao meu lado como um adulto mal-humorado. Liceu ou emprego? Estudar para adiar o futuro ou trabalhar para o enfrentar de frente? Ninguém explica estas coisas. Aprende-se por colisão.

A tarde passou sem grande história. Um tempo morno, desses que não ferem nem curam. Li um pouco, vagueei dentro de mim, tentei não pensar muito — tarefa impossível, mas insistente.

À noite, já com o silêncio a instalar-se, o céu chamou por mim. Fiquei a observá-lo mais tempo do que o razoável, como se estivesse à espera de uma resposta que não fiz pergunta nenhuma. Houve um momento estranho, difícil de explicar: uma luz distante, um movimento que não parecia obedecer às regras conhecidas. Talvez fosse apenas imaginação. Talvez não. Gosto desta dúvida. Dá-me a sensação de que o mundo ainda guarda segredos e não se limita ao que cabe nos anúncios do jornal.

Entrei em casa com essa ideia a acompanhar-me. Entre a terra e as estrelas, continuo sem saber bem onde fico. Mas começo a desconfiar que crescer é isto mesmo: aprender a viver no intervalo.


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