A paciência aprende-se devagar
Sexta-feira, 23 de Julho de 1976
A manhã voltou a repetir-se, como um disco riscado que insiste em tocar a mesma faixa. Jornal na mão, anúncios à frente, esperança curta. Procuro trabalho mais por dever do que por convicção. Há dias em que parece que o futuro está sempre “a aceitar candidaturas”, mas nunca chama ninguém.
O meu pai observa-me em silêncio. Não diz muito, mas o silêncio pesa. É um silêncio de quem quer soluções rápidas para problemas lentos. Eu compreendo-o. Ele não me compreende. Ficamos assim, empatados.
A tarde foi passada entre leituras soltas e pensamentos dispersos. Não aconteceu nada de especial, o que por si só já é um acontecimento. Há dias que servem apenas para treinar a paciência, essa virtude que ninguém ensina e que a vida cobra com juros.
De tarde encontrei-me com o Manel. Andámos de bicleta um pouco por todo o lado, falámos de tudo um pouco como que a procurarmos ocultar os pensamentos que cada um traz no seu íntimo. Às vezes a amizade não precisa de assunto, basta presença. Cada um carrega as suas inquietações como pode, e respeitamos isso sem discursos.
Ao fim da tarde fui para a Academia. Uma forma de fugir à rotina e ao mesmo tempo descarregar as energias negativas dos meus pensamentos. Da Aida nem vislumbre. Não importa, não foi relevante para o meu estado de espírito actual.
À noite fiquei em casa. Não houve céu para espiar nem mistérios para decifrar. Apenas o tempo a escorrer devagar, como mel frio. Senti-me suspenso, à espera de qualquer coisa que ainda não sei nomear.
O dia terminou sem respostas, mas também sem derrotas. E começo a perceber que há dias assim: não constroem, não destroem — apenas mantêm tudo de pé. E, por agora, talvez seja suficiente.
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