O que não se escreve fica
Sábado, 24 de Julho de 1976
O sábado acordou sem pressas, como se também ele estivesse de férias das decisões importantes. De manhã não houve jornal nem anúncios — ninguém espera que o futuro trabalhe ao fim-de-semana. Aproveitei esse pequeno alívio sem culpa.
A tarde trouxe o encontro do costume. Eu e o Manel. O nosso Duo que já foi um trio. O afastamento de Benjamim é notório. Duas maneiras diferentes de olhar o mundo, sentados no mesmo banco, a fingir que sabemos mais do que sabemos. Falámos. Dessas que fazem rir, pensar e ficar calado ao mesmo tempo. Conversas que não se contam por não terem história ou conteúdo narrável. Há palavras que só funcionam no ar onde nascem.
Sentimos que ainda somos apenas rapazes a ensaiar o papel de adultos. Experimentamos ideias como quem veste casacos grandes demais. Uns ficam bem, outros fazem rir. Mas é assim que se aprende.
Ao cair da noite cada um seguiu o seu caminho. Fiquei com aquela sensação estranha de ter vivido algo importante sem saber explicar porquê. Talvez seja isso que torna certas conversas valiosas: não deixam provas, apenas marcas.
O dia terminou tranquilo. Sem anúncios, sem escolhas, sem céu extraordinário. Apenas a certeza silenciosa de que, apesar de tudo, ainda há espaço para pensar, rir e calar. E isso, por agora, chega perfeitamente.
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