Recortes do futuro

Domingo, 25 de Julho de 1976

A manhã começou simples. Levantei-me, tomei o pequeno-almoço e depois ocupei-me de algo aparentemente banal: procurei em casa uma nova capa para o meu arquivo de acontecimentos de ciência e de casos insólitos. Encontrei-a. Arranjei-a com cuidado. Gosto destas pequenas arrumações — dão a ilusão de que o mundo também pode ser posto em ordem.

A minha avó, mãe do meu pai, veio visitar-nos. Ficou connosco até perto da hora do almoço, fez companhia, disse pouco, observou muito. Convidámo-la a ficar para almoçar, mas recusou. Foi-se embora como chegou: discreta, sem fazer ruído. Há pessoas assim — passam e deixam presença.

A tarde arrastou-se calma. Vi televisão até à hora do jantar e, depois de comer, voltei a ligar a televisão. O domingo pedia isso: imagens em movimento para um dia imóvel.

Entre programas e notícias, algo maior aconteceu, mesmo à distância. Um passo estava a ser dado na ciência: uma nave americana tinha aterrado no solo de Marte. Desde a aterragem até agora, tenho vindo a recortar jornais e a guardá-los no meu arquivo. Não sei explicar bem porquê, mas sinto que isto importa. Como se o futuro estivesse a acontecer enquanto eu estou sentado no sofá.

Enquanto o mundo chega a Marte, eu organizo capas, recorto jornais e vejo televisão com a família. Parece pouco. Mas talvez crescer seja também isto: perceber que o extraordinário e o banal caminham lado a lado, sem se olharem. E que, às vezes, guardar um recorte é uma forma silenciosa de dizer: eu estive aqui quando isto começou. Perfeito. Agora temos o chão certo debaixo dos pés. Vamos a ele, fiel ao dia, mas com mais respiração — sem o disfarçar de coisa que não foi.


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