O lugar onde o coração não esquece
Segunda-feira, 26 de Julho de 1976
A manhã passou sem resistência. Cumpri todas as rotinas como quem segue marcas no chão: levantar, pequeno-almoço, gestos repetidos, pensamentos em piloto automático. Nada falhou, nada se destacou. Há dias que começam assim, correctos mas vazios, como uma folha bem alinhada onde ainda ninguém escreveu.
Foi de tarde que o dia se desviou do caminho previsto. O Manel pediu-me para o acompanhar ao posto médico. Disse-o sem importância, mas para mim o pedido abriu uma porta antiga. Mal lá cheguei, o corpo denunciou-me antes da cabeça: o coração acelerou, como se soubesse exactamente onde estava.
Aquele lugar guarda um momento que nunca abandonei. Um encontro breve, intenso, definitivo. Ali vi a Dila de uma forma que não se esquece. E, como sempre acontece quando se regressa aos sítios errados com as esperanças certas, fiquei à espera. Não dela exactamente — disso já não ouso — mas da repetição do impossível. Um olhar, um acaso, qualquer coisa que dissesse que o passado ainda conversa com o presente.
Nada aconteceu. Fiquei-me pela expectativa, que é uma forma elegante de dizer frustração. A esperança cumpriu o seu papel: apareceu, aqueceu-me por instantes, e foi-se embora sem se despedir.
Depois disso, o resto do dia perdeu valor. As horas escureceram antes do tempo, como se a tarde tivesse desistido de fingir luz. Voltei para casa diferente, não mais triste, apenas mais consciente de que há memórias que não envelhecem — ficam à espera, imóveis, prontas a despertar ao menor sinal.
Há lugares que não são lugares. São gatilhos. Entramos neles a pensar que somos quem somos hoje, e saímos lembrados de quem fomos. Nem sempre se volta a ver quem se deseja. Mas quase sempre se confirma o que nunca deixou de importar.
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