Há memórias que não pedem licença
Terça-feira, 27 de Julho de 1976
A manhã passou como passam as manhãs de férias: sem deixar rasto. Acordar tarde, cumprir os gestos mínimos, olhar o tempo a andar sem mim. Não houve pensamentos dignos de nota, nem inquietações. Apenas o conforto morno de não ter nada para contar. Há dias assim. Dias que existem só para que os outros se destaquem.
A tarde levou-me com o Manel até ao Porto. A biblioteca recebeu-nos como sempre: silenciosa, paciente, indiferente às nossas vidas. Ali, o tempo tem outra espessura. Lê-se, folheia-se, finge-se estudar o mundo enquanto se foge dele. Ficámos até ao fim da tarde, lado a lado, cada um fechado nos seus pensamentos, como dois viajantes que partilham o mesmo banco mas seguem destinos diferentes.
Ao regressar, ele foi para casa. Eu segui para a Academia. O corpo precisava do que a cabeça não resolve.
Estive com a Aida antes do treino. Conversa leve, presença fácil, aquele à-vontade que não exige esforço nem defesa. Depois do treino voltámos a falar. No fim, com um sorriso meio decidido, meio ensaiado, insistiu em marcarmos um encontro mais cedo para a próxima sexta-feira. Aceitei. Não por entusiasmo arrebatado, mas por curiosidade tranquila. Interessante ou não, depois se verá. A vida também avança assim: por pequenos “logo vemos”.
Mas há sempre um “mas”.
Enquanto tudo isto acontecia — a biblioteca, a Aida, o treino — a Dila começou novamente a ocupar-me os pensamentos. Não entrou de rompante. Instalou-se devagar, como quem já conhece o caminho. Não a chamei. Não a procurei. Ainda assim, ali estava ela, entre um gesto e outro, entre uma palavra e um silêncio.
Qual será o significado?
Talvez nenhum. Talvez todos.
Há memórias que não pedem licença. Limitam-se a regressar quando a guarda está baixa. E hoje, claramente, estava.
O dia acabou assim: aparentemente simples, mas com o fundo a agitar-se. Como o mar num dia calmo — à superfície nada acontece, mas lá em baixo tudo se move.
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