O vulto dos meus pensamentos

Quarta-feira, 28 de Julho de 1976

Voltou a necessidade de pedalar sem destino, como se houvesse outro. Há quem diga que todos os caminhos vão dar a Roma. No meu caso, não. Os meus caminhos são teimosos: levam-me sempre ao mesmo sítio. As mesmas ruas, as mesmas curvas, os mesmos pontos de paragem invisíveis. Mudam as horas, não muda a expectativa. E talvez seja isso que importa — não o resultado, mas o princípio. O impulso de sair. De ir.

A manhã foi passada assim, com o Manel. Duas bicicletas, poucas palavras, muito ar nos pulmões. Pedalar é pensar com o corpo. As pernas avançam e a cabeça segue atrás, desarmada. Não se foge de nada, apenas se anda à volta do essencial. E o essencial, como sempre, não aparece.

A tarde repetiu-se. Os mesmos gestos, o mesmo vaguear, como se o dia tivesse decidido dobrar-se sobre si próprio. As férias são isto mesmo: andar sem mapa, respirar fundo, ser livre enquanto se pode. Uma liberdade provisória, sabemo-lo bem, mas ainda assim liberdade. Há um luxo silencioso em não dever explicações ao relógio.

E no meio desse espaço aberto, desse tempo quase vazio, volto a ansiar pelo vulto dos meus pensamentos. Não uma resposta clara, não uma decisão — apenas a sombra de algo que se aproxima e nunca chega totalmente. Talvez seja a Dila. Talvez seja só a ideia dela. Talvez já não haja diferença.

Tudo o mais foi tempo e espaço sem conteúdo.
Mas até o vazio, quando insistente, começa a dizer qualquer coisa.


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