Um dia diferente
Quinta-feira, 29 de Julho de 1976
A manhã trouxe de volta a rotina conhecida, quase resignada, de ir procurar emprego no Jornal de Notícias. Folhear anúncios é um exercício estranho: procura-se futuro em letras pequenas, sabendo de antemão que quase nunca está ali. O Manel acompanhou-me, como sempre. Não pergunta muito, não comenta em excesso. Está. E às vezes isso basta. Do Benjamim, nem rasto. O silêncio dele começa a ser hábito, e os hábitos também dizem coisas.
A ideia de continuar o meu ficheiro de fenómenos insólitos empurrou-nos para casa do Zé Carlos. Na garagem, o passado acumulava-se em pilhas de jornais antigos, coisas do pai dele. Papel amarelado, datas esquecidas, títulos que prometiam mistério e entregavam espanto. Ficámos ali horas, de manhã e depois novamente à tarde, a recortar notícias como quem garimpa ouro em rio seco. Pouco brilho, muita paciência.
De regresso a casa, eu e o Manel entretivemo-nos a arquivar o resultado das pesquisas. Pastas, separadores, ordem. Há qualquer coisa de tranquilizador em dar forma ao caos, mesmo quando o mundo insiste em não a ter. Talvez seja uma tentativa ingénua de controlar pelo menos uma parte da realidade. Se não posso decidir o rumo do dia de amanhã, ao menos decido onde fica cada recorte.
À noite fui ao CRM (Centro Revolucionário Mineiro) com o meu pai e a minha irmã Fernanda. Passaram um filme do realizador Rui Simões e, no fim, houve palestra. A sala estava carregada daquela electricidade própria destes tempos — palavras grandes, ideias em combustão, gente convencida de que pode mudar tudo já amanhã. O período revolucionário corre como sangue nas veias do país, e sente-se. Mesmo quando não se concorda com tudo, é impossível ficar indiferente.
Foi um fim de dia interessante. Diferente.
Entre jornais velhos e discursos novos, percebi que também eu ando à procura de um lugar — nem que seja numa pasta bem etiquetada, enquanto o mundo decide o que quer ser.
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