Sombras que não pedem licença
Sexta-feira, 30 de Julho de 1976
Mais um dia quente, desses que não deixam esquecer que é Verão. O sol impôs-se logo de manhã, pesado, quase autoritário. A casa, mantida na penumbra, oferecia sombra e uma frescura enganadora. Fiquei por ali, rendido. A vontade de sair evaporou-se antes mesmo de nascer. Há dias em que o corpo decide por nós, e não vale a pena contrariá-lo.
De tarde, o Manel apareceu. Sempre ele. Não traz novidades, não exige planos. Faz companhia como quem estende uma cadeira ao lado. Ficou comigo até chegar a hora de ir para a Academia. Levantei-me mais por inércia do que por impulso.
Fui mais cedo, como combinado, para me encontrar com a Aida. Ela tinha pedido. Esperei. Esperei mais. Só apareceu uma hora depois. Surpreendeu-me a minha própria paciência — fiquei agradado com ela, confesso. Já a demora dela, não. Há atrasos que não magoam, mas cansam. E este foi um deles.
Depois do treino, estava à minha espera. Entregou-me um bilhete com um grupo de perguntas. Li-o no trólei, a caminho de S. Pedro, embalado pelo chiar dos cabos e pelo balanço do carro. As perguntas pareceram-me intrusivas, fora de tom, como se quisessem saltar etapas que eu ainda nem sabia se queria percorrer. Pensei: para quê isto tudo, agora?
E no entanto — há sempre um “no entanto”.
Tenho de reconhecer que existe uma sombra que se sobrepõe a ela. Uma presença ausente, mas firme. Mesmo sem estar ali, a Dila continua a pesar mais do que eu julgava. Não levanta a voz, não faz perguntas, não exige respostas. Limita-se a existir dentro de mim. E isso, afinal, tem um poder enorme sobre a minha vontade.
O dia acabou assim: com o calor a dissipar-se devagar, com um papel dobrado no bolso e com a certeza desconfortável de que algumas sombras não precisam de luz para se imporem.
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