Centro Revolucionário Mineiro

Sábado, 31 de Julho de 1976

A manhã passou com uma calma quase excessiva. Depois do pequeno-almoço, voltei ao ritual do jornal, à procura de emprego, como quem consulta um oráculo pouco falador. As páginas sucederam-se sem surpresa. O calor, persistente e sem piedade, acabou por vencer. Dei por mim estendido no sofá, rendido, a dormir um sono leve, desses que não resolvem nada mas suspendem tudo.

De tarde, eu e o Manel fomos com o meu pai ao CRM. Precisavam de voluntários, disseram. Não pensei muito. Como nada mais tinha para fazer, aceitei. O Manel também. Descemos às caves dos antigos escritórios da Mina, agora transformados em centro revolucionário. Três salas. Arquivos espalhados pelo chão, papéis misturados, datas cruzadas, um caos paciente à espera de mãos disponíveis.

Passámos horas a ordenar tudo. Pastas, montes, tentativas de lógica. Política à parte — da qual nada sabia e pouco me interessava — havia ali uma tarefa concreta, quase honesta. Arrumar. Dar sequência. Fazer caber cada coisa no seu lugar. E isso, para mim, já era suficiente.

O que eu procurava não era ideologia, nem fervor. Era ocupação. Preencher o tempo que me sobrava agora que estava de férias. Talvez, com sorte, este “trabalho” conseguisse afastar outras preocupações da cabeça. Talvez o cansaço físico ajudasse onde os pensamentos insistiam em falhar.

Não sei se resultou.
Mas enquanto dobrava papéis no subsolo fresco da Mina, senti, por momentos, que o mundo estava exactamente à escala das minhas mãos. E isso, mesmo que breve, soube bem.


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