À espera da noite
Terça-feira, 17 de Agosto de 1976
Hoje tirei o dia para mim. Ou, pelo menos, tentei. Peguei no livro Viagem ao Centro da Terra, de Júlio Verne, fechei-me no quarto e quis desaparecer do mundo conhecido. Descer por crateras imaginárias parecia-me mais suportável do que enfrentar o que estava à superfície.
Mas a realidade não ficou à porta.
O Bobi não estava melhor. Via-se que sofria. A patita inchada, um cheiro que denunciava o que eu não queria admitir. Doía-me olhar para ele. Doía-me ainda mais não poder fazer nada que resolvesse.
E dei comigo a pensar o impensável: que talvez fosse melhor que ele morresse para não sofrer tanto.
Escrever isto custa. Mas é verdade. Não era falta de amor. Era amor ferido, impotente, cansado de ver dor sem remédio. Às vezes o coração entra em contradição consigo próprio.
De tarde tentei reagir. Procurei sacudir os pensamentos negros como quem sacode pó de um casaco. Afundei-me na música — não funcionou. As notas pareciam distantes, ocas. Tentei ler — as palavras não se fixavam. Treinei, empurrei o corpo até ao limite na esperança de descarregar a dor pelos músculos. Nada.
A angústia não sai com suor.
Saí de casa sem destino. Caminhei sem rumo certo, como se o movimento pudesse dissolver o que me pesava. Mas levamos sempre connosco aquilo de que queremos fugir. As preocupações caminharam ao meu lado, silenciosas e fiéis.
Voltei.
Então esperei que a noite caísse. Não por descanso. Mas porque a escuridão disfarça melhor o que nos vai por dentro. A noite não resolve, mas esconde. E há dias em que isso parece suficiente.
Hoje percebi que crescer também é isto: confrontar-se com a fragilidade — a dos outros e a nossa.
E não ter resposta.
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