Fuga para lugar nenhum

Quarta-feira, 18 de Agosto de 1976

Quando a dor se prolonga, ela muda de forma. Deixa de ser um choque e passa a ser um peso constante. Este dia tem esse peso.

O drama do Bobi continua a desenrolar-se, lento e cruel. Não está melhor. O meu pai decidiu engessar-lhe a patita. Foi um gesto de tentativa, de desespero talvez. Ver aquilo foi doloroso. O Bobi imóvel, resignado, confiando em nós enquanto lhe prendiam a perna num invólucro duro que prometia cura mas não garantia nada.

Não consegui ficar.

Saí de casa e fui para o CRM. Tornou-se um lugar seguro, quase um abrigo mental. Ali, a minha cabeça ocupa-se. Ali, os problemas são concretos e resolúveis: um ficheiro em falta, um nome mal arquivado, uma data por confirmar. Trabalhei muito. Sem pausas. Sem dar espaço ao pensamento. Como se a minha própria vida dependesse daquele ritmo.

Talvez dependesse mesmo — pelo menos o equilíbrio.

O corpo pode estar cansado; a mente agradece.

Quando voltei a casa, encontrei o Bobi sem melhoras. E, como se quisesse libertar-se do próprio desconforto, estivera a roer o gesso. A imagem dele a tentar livrar-se daquela prisão improvisada ficou-me atravessada. Não sei o que dói mais: a ferida ou a impotência.

Estar em casa era doloroso. Mas não tinha para onde ir. Não há fuga possível quando o que nos magoa está deitado numa caixa no centro da nossa vida.

A noite voltou a ser o que mais ansiava. Não por descanso verdadeiro, mas porque o escuro atenua os contornos da realidade. A luz obriga-nos a ver; a noite permite-nos suportar.

Hoje senti-me dividido entre fugir e ficar. Fiquei.

E isso, por mais pequeno que pareça, também é uma forma de coragem.


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