O tempo deixou de ser solidão
Quinta-feira, 19 de Agosto de 1976
Há dias que não trazem sobressalto nenhum. São como rios largos: não fazem barulho, mas seguem. Este foi assim.
Ir ao CRM todas as manhãs já não é novidade — é disciplina. Levanto-me, preparo-me, e caminho até lá como quem assume um posto silencioso. Não custa. Pelo contrário. Há qualquer coisa de limpo naquele gesto repetido. Entre arquivos, papéis e pequenas tarefas, a mente ocupa-se. E quando a mente trabalha, os pensamentos intrusivos ficam do lado de fora, a bater à porta sem resposta. Ali, por algumas horas, sou só eu e o que tenho de fazer.
No regresso a casa, quase ao fim da manhã, vi o Manel e o Benjamim. Vinham na minha direcção e, num movimento mal disfarçado, desviaram-se. Fingiram não me ver. Aquela tentativa de invisibilidade foi mais evidente do que se tivessem parado para falar. Não sei que erro cometi, se é que cometi algum. Também não vou fazer daquilo um tribunal interior. Quem quer afastar-se, afasta-se. E quem fica, aprende a caminhar sem companhia.
À tarde voltei aos livros. A leitura continua a ser a minha melhor estratégia contra o ruído do mundo. Abro um romance e entro noutro território. Não é fuga cobarde — é exercício de liberdade. Viajo sem bilhete, atravesso guerras, desertos, galáxias ou aldeias imaginárias, conforme o autor me conduz. A música acompanha, discreta, e entre uma faixa e outra organizo recortes de fenómenos insólitos numa pasta que já começa a ganhar espessura. Há qualquer coisa de quase científico nesse gesto de colar, arquivar, catalogar. Como se eu pudesse dar ordem ao inexplicável.
O tempo deixou de ser solidão. É preenchimento. Leitura, música, arquivo, pequenas tarefas. Um homem pode construir-se assim, aos poucos, mesmo que ainda seja apenas um rapaz.
Ao cair da noite, porém, há sempre um espaço onde o pensamento escurece um pouco. Dou por mim a olhar para trás — não apenas para mim, mas para a família inteira. Há uma sucessão de azares que parecem repetir-se como um padrão antigo. Conflitos, perdas, tensões, silêncios que atravessam gerações. Às vezes pergunto-me se não haverá um fio invisível que vem de muito longe e se enrola em nós, como herança que ninguém pediu.
Mas depois penso melhor. Talvez não seja maldição nenhuma. Talvez seja apenas a soma de escolhas mal feitas, medos não enfrentados, palavras que nunca foram ditas no tempo certo. As famílias não herdam só traços do rosto — herdam maneiras de calar, de reagir, de amar mal ou de amar pouco.
Se há um problema que se propaga desde o passado, então a única forma de o interromper é reconhecê-lo. E isso já é um começo.
Não posso mudar o que veio antes de mim. Mas posso decidir que certas correntes terminam aqui.
E amanhã, como hoje, levantarei cedo e irei ao CRM. Não por rotina apenas, mas por convicção. Cada gesto simples é uma pequena ruptura com o que me quer arrastar para trás.
E isso, por agora, basta.
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