A frustração instala-se devagar
Sexta-feira, 20 de Agosto de 1976
Hoje a rotina sofreu um pequeno desvio. Disseram-me que não precisava de ir ao CRM. A frase caiu simples, sem dramatismo, mas abriu um espaço inesperado na manhã. Fiquei em casa. Li.
Ler de manhã tem outro sabor. A casa ainda meio adormecida, a luz a entrar devagar pelas janelas, o silêncio menos pesado. Sentei-me com um livro e deixei que as páginas fizessem o seu trabalho de sempre: organizar o caos interior. Não é milagre, mas é método. Enquanto leio, o mundo fica com margens.
A tarde cumpriu o guião habitual. Sozinho, como quase sempre. Já não faço disso tragédia. A solidão é uma cadeira onde me sento todos os dias; às vezes incomoda, outras vezes molda-se ao corpo. Há quem tenha multidões e se sinta vazio. Eu tenho silêncio e tento preenchê-lo com substância.
Não tenho falado do Bobi. Não por descuido. Por dor.
Vejo-o todos os dias a perder força. O corpo a ceder, o olhar a pedir descanso. Há uma dignidade triste nos animais quando sofrem em silêncio. Não se queixam como nós, não dramatizam, não culpam o mundo. Limitam-se a suportar. E isso parte-me por dentro. A impotência é uma das piores sensações que um homem pode experimentar. Querer aliviar e não saber como. Querer trocar de lugar e não poder.
Evito escrever sobre ele porque escrever torna real. E, no entanto, é mais real do que tudo o resto.
À noite, as coisas pesam mais. A noite não é boa conselheira; amplia o que o dia consegue disfarçar. Ponho música a tocar — uma tentativa de companhia artificial — mas nem sempre resulta. Há momentos em que a melodia parece apenas sublinhar a ausência de vozes.
A frustração instala-se devagar. Não é explosiva. É um cansaço que se espalha. A solidão, essa, não faz barulho. Encosta-se.
Mas há uma coisa que a noite não consegue tirar: a consciência de que sentir assim é também prova de que estou vivo. De que me importo. Com o Bobi. Com o que poderia ser diferente. Com o que ainda pode vir.
Talvez seja isso que me mantém firme. Não a ausência de dor, mas a recusa em me tornar indiferente.
Amanhã será outro dia. E enquanto houver um amanhã, há sempre a hipótese de quebrar o ciclo, de mudar o tom, de escrever uma linha que não repita as anteriores.
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