Chuva e silêncios
Sábado, 21 de Agosto de 1976
Choveu desde cedo. Daquela chuva miúda e persistente que arrefece o ar e amolece a vontade. Acordei com o som dela nos vidros e, por momentos, pensei ficar mais um pouco no aconchego da cama. Há dias em que o mundo parece pedir pausa, não combate.
Levantei-me, ainda assim.
Hoje escolhi um livro de humor. Uma decisão consciente. Ando há demasiado tempo mergulhado em histórias densas, carregadas de destino e drama. O humor é uma espécie de intervalo — uma gargalhada discreta no meio do peso. Há muito que não leio um romance. Talvez porque os romances mexem onde dói. Talvez porque, se me deixo tocar, a defesa cai. E eu, por agora, prefiro alguma anestesia nesse território. Não é cobardia. É gestão de danos.
A tarde levou-me de volta ao CRM. A chuva não afastou ninguém; pelo contrário, parecia empurrar ainda mais gente para dentro. Antigos mineiros surgiam, um após outro, à procura de uma ajuda necessária, urgente, quase vital. Havia no rosto deles uma mistura de cansaço e dignidade. Homens que deram o corpo à terra e agora pedem um amparo mínimo.
Eu ajudava no que podia. Aprendi a escrever à máquina — as teclas duras, o ritmo irregular, o cuidado para não errar porque apagar não é simples. E comecei a usar um ficheiro de pequenas fichas, organizadas em ordem que tenta impor lógica à vida real. Nome, idade, anos de trabalho, situação. Cada cartão um homem. Cada homem uma história que não cabe no cartão.
Quando percebi que eram centenas, senti o peso da tarefa. Um trabalho monumental, paciente, repetitivo. Mas também necessário. Talvez seja isso que me mantém ali: a noção clara de utilidade. Não é glória. É serviço.
A tarde correu assim, entre o som das teclas, o cheiro a papel húmido e vozes que pedem sem querer pedir demasiado.
À noite, o cansaço era limpo. Daquele que não humilha, antes confirma que o dia foi vivido com propósito. A chuva continuava, mas já não me incomodava. O descanso foi bem-vindo, quase merecido.
Há dias em que não se sente muito. Trabalha-se. Cumpre-se. E isso, surpreendentemente, também constrói qualquer coisa de sólido dentro de nós.
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