Um dia cinzento
Domingo, 22 de Agosto de 1976
A chuva continuou. Persistente, fria, como se tivesse decidido instalar-se sobre a vila e sobre mim. Talvez até pudesse ter saído, mas não quis. Usei o tempo como desculpa e fiquei. Há dias em que não é o céu que nos prende — somos nós.
Hoje dei-me férias. Não das obrigações apenas, mas do esforço de parecer firme. Também mereço esse direito. Depois de tudo o que se acumulou nestes meses, há um cansaço que não é físico. É outro. Mais fundo.
A perda da Dila — aquela que me fazia sonhar alto, que me dava uma direcção invisível — deixou um espaço que ainda não aprendi a ocupar. Não foi apenas uma ausência; foi a retirada de uma luz. Depois veio o forcing do meu pai para abandonar o liceu e ir trabalhar, como se os sonhos fossem um luxo dispensável. Não houve discussão longa, apenas a imposição seca da realidade. E eu, que ainda estava a aprender quem era, passei a ter de aprender o que era preciso ser.
Os amigos foram-se afastando. Às vezes as distâncias não têm culpado definido. Simplesmente crescem.
E o Bobi… a perda iminente paira como sombra constante. Olho para ele e sinto que estou a assistir a uma despedida lenta. Não há preparação suficiente para isso.
Perante tudo isto, deixei de ter grande vontade de olhar para mim. Evito o espelho interior. Pergunto-me se o que sinto é pena de mim próprio ou frustração por não conseguir mudar o rumo das coisas. Talvez seja um pouco de ambas. Talvez seja apenas desgaste.
Hoje foi um dia cinzento. Por dentro e por fora. Nem a leitura conseguiu abrir frestas. Nem a música suavizou o peso. Houve momentos em que o silêncio parecia mais honesto do que qualquer tentativa de distração.
Mas mesmo no cinzento há verdade. Reconhecer o cansaço é diferente de desistir. E eu não desisti. Estou abatido, sim. Estou magoado, também. Mas continuo aqui.
Talvez amanhã a chuva abrande. Talvez não. O importante é que, mesmo sem vontade, continuo a atravessar os dias. E atravessar já é uma forma de resistência.
Há fases em que viver é apenas isto: não recuar.
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