O dia que não queria escrever
Segunda-feira, 23 de Agosto de 1976
Hoje foi um daqueles dias que eu preferia rasgar antes mesmo de o viver. Não me apeteceu registar nada. Mas talvez seja precisamente por isso que tenha de o fazer.
De manhã fui ao CRM, como sempre. Cumpri a rotina com a disciplina de quem segura a própria vida pelo hábito. Fichas, nomes, pedidos, o som seco da máquina de escrever. Tudo normal. Tudo mecânico. Não fazia ideia de que o dia guardava outra coisa.
Quando cheguei a casa, o choque. O meu pai pediu-me para o acompanhar ao canil no Porto. A decisão estava tomada. O sofrimento do Bobi tinha ultrapassado o limite suportável. Já não era vida. Era espera.
A frase foi dita com firmeza, mas os olhos da família traíam o que custava. Chorámos. Cada um à sua maneira. Não há forma digna de aceitar que o amor, por vezes, obriga a deixar partir.
Fomos.
Não quero descrever o momento. Há dores que não ganham nada em ser detalhadas. Só sei que o silêncio pesava mais do que qualquer palavra. O Bobi confiava. Isso é o que mais dói. A confiança inteira de um animal que não compreende o fim, apenas a presença.
Voltei diferente. A casa parecia maior e vazia. A ausência tem som próprio. Um espaço onde ele costumava estar tornou-se território proibido aos olhos.
O resto do dia foi para esquecer, mas esquecer é impossível. Esperei pela noite como quem espera anestesia. Queria dormir. Suspender o pensamento. Avançar para o dia seguinte como se o calendário pudesse aliviar o que o coração não consegue.
Hoje aprendi uma coisa dura: amar também é ter a coragem de pôr fim ao sofrimento de quem não pode escolher. Não consola. Mas talvez explique.
Agora só quero fechar os olhos. Amanhã existirá. Hoje não quero mais nada.
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