Entre a névoa e o ofício
Terça-feira, 24 de Agosto de 1976
A manhã acordou enevoada, com chuva fina a cair sem pressa. O céu parecia reflectir o que me ia por dentro. Dormi mal. O sono veio aos pedaços, interrompido por imagens que não pedi para rever. O luto não faz barulho, mas ocupa espaço.
Fui para o CRM. Trabalhar ajuda. No escritório senti algo diferente — como se tivesse sido discretamente promovido. Já não era apenas a cave, os arquivos, o trabalho invisível. Agora também estava ali, à frente, a receber os poucos mineiros que iam aparecendo durante a semana. Homens simples, de mãos marcadas, voz contida. A grande enchente acontece ao fim-de-semana, quando chegam em excursões, quase em romaria, trazendo consigo histórias e necessidades acumuladas.
Hoje foram poucos. O suficiente para me obrigar a atenção inteira.
Há qualquer coisa de dignificante em ser útil. Ouvir, preencher fichas, escrever à máquina com menos hesitação do que há dias atrás. Cada pedido atendido era uma pequena afirmação: estou aqui, sirvo para isto. Não cura a dor, mas organiza-a.
Depois do almoço voltei ao escritório e cumpri com afinco tudo o que me foi solicitado. Sem queixas. Sem dispersões. Trabalhei como quem constrói uma muralha discreta contra o vazio.
Ao regressar a casa, ao fim da tarde, senti-me em paz comigo. Não completamente leve — o Bobi continua presente na ausência — mas sereno. A tristeza ainda está, mas já não é desordem. É memória recente, ainda quente.
A noite trouxe descanso. Não um esquecimento forçado, mas uma espécie de aceitação provisória. Há perdas que não se superam; aprendem-se a transportar.
E eu começo a perceber que crescer talvez seja isto: atravessar a névoa e continuar a cumprir o que tem de ser feito, mesmo com o coração em reconstrução.
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