A disciplina do igual
Quarta-feira, 25 de Agosto de 1976
Há dias que não pedem palavras. Este foi um deles.
Acordei, cumpri as rotinas, fui ao CRM. O céu já não tinha a dramaticidade da chuva cerrada, mas também não oferecia grande claridade. Trabalhei no escritório, atendi quem apareceu, organizei fichas, bati à máquina com o cuidado de sempre. Nenhum acontecimento fora do comum. Nenhuma surpresa. Nenhum sobressalto.
À primeira vista, um dia sem história.
Mas começo a desconfiar que há uma história escondida nesta repetição. A disciplina do igual. Levantar mesmo quando não apetece. Trabalhar mesmo quando a alma ainda se recompõe. Manter o passo. Não é heroísmo. É persistência.
Ainda sinto a ausência do Bobi. Ainda há momentos em que o silêncio da casa me chama a atenção para o que falta. Mas já não é um golpe súbito. É uma presença suave, quase respeitosa.
O resto do dia correu dentro do esperado. Sem euforias. Sem quedas. Talvez seja isto que chamam estabilidade — uma linha recta que não entusiasma, mas também não derruba.
Hoje não houve grandes pensamentos, nem grandes revelações. Apenas a constatação de que os dias iguais também constroem carácter. A monotonia pode ser aborrecida, mas é nela que se cimenta a resistência.
Nem todos os dias precisam de ser memoráveis. Alguns existem apenas para nos manter em marcha. E isso, afinal, já é suficiente.
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