Ciclo estranho de memórias

Quinta-feira, 26 de Agosto de 1976

Hoje foi um dia diferente para S. Pedro da Cova. O realizador Rui Simões anda pelas minas a filmar a vida dos mineiros. Por isso o CRM esteve fechado. As portas cerradas por causa do cinema — quem diria. A realidade suspensa para ser recriada.

Aproveitei a manhã para me organizar. Setembro aproxima-se e com ele o regresso aos treinos de Karaté. Estendi o kimono na cama, verifiquei o saco, a toalha, a t-shirt. Gosto deste ritual quase militar de pôr tudo em ordem. Há disciplina nisso. O saco, porém, já acusava cansaço. Fui a Gondomar comprar um novo. Pequena despesa, mas necessária. Há coisas que não se podem improvisar.

De tarde inventei tarefas. Arrumei, revi apontamentos, mexi em papéis. Ocupei as mãos para que a cabeça não vagueasse demasiado. Mas há dias em que o destino gosta de testar a nossa firmeza.

Olhei pela janela e vi a Dila.

Não me esqueci dela. Tento. Houve até um tempo recente em que quase consegui. Comecei a falar com a Aida, distraí-me, impus a mim próprio uma certa frieza. Mas basta a Dila surgir — ela, ou um dos familiares — e tudo regressa. Fico meses a pensar nela, nos momentos que partilhámos, no que poderia ter sido. Quando começo finalmente a esquecer, a vida faz questão de a colocar de novo no meu caminho. É um ciclo estranho. Como se algo me mantivesse preso àquela memória, como se houvesse ali uma lição que ainda não aprendi.

Não é apenas saudade. É uma espécie de íman invisível. E eu, que me julgo disciplinado, fico sem defesa.

À noite, porém, o dia ganhou outra tonalidade. O meu padrinho António veio a casa com uma novidade: no Domingo devo ir ao CRM para participar nas filmagens do filme de Rui Simões. Entrar num filme. Eu.

Fiquei deslumbrado. A ideia de fazer parte de algo que ficará registado, que poderá ser visto por outros, mexeu comigo. Não é vaidade. É curiosidade. É a sensação de que, por instantes, sairei do papel de figurante da minha própria vida para me tornar figurante numa história maior.

Engraçado como o mesmo dia pode conter o passado que insiste e uma possibilidade nova que se abre.

Talvez a vida seja isto: memórias que nos puxam para trás e convites inesperados que nos empurram para a frente. O importante é não ficar imóvel no meio.


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