O Vapor da Meia Noite

Sexta-feira, 27 de Agosto de 1976

De volta à rotina. Como quem regressa a um trilho já gasto pelos próprios passos.

A manhã foi passada no arquivo, emaranhado entre pastas, papéis, fichas que parecem multiplicar-se quando lhes viramos as costas. Há qualquer coisa de labiríntico naquele espaço. Poeira, silêncio, nomes alinhados como se a vida pudesse ser organizada por ordem alfabética. Cumpri o que havia a cumprir. Sem brilho, mas com rigor.

À tarde permiti-me descansar. Fechei-me no quarto, enrolei-me numa manta e abracei a música como quem procura colo. Ouvi rádio, gravei canções — aquele gesto quase solene de esperar que a voz do locutor se cale para carregar no botão certo. Pequenas vitórias domésticas. Quando a monotonia começou a insinuar-se, peguei num livro da Agatha Christie. Nada como um bom mistério para ocupar a mente. Ali, pelo menos, há sempre uma lógica escondida, uma verdade que acaba por revelar-se. Na vida real nem sempre é assim.

À noite, a minha irmã mais velha trouxe-me o livro de S. Cipriano. Deixei-o sobre a mesa. Amanhã pegarei nele. Há qualquer fascínio antigo nesses textos, uma curiosidade que mistura crença, superstição e desafio. Não sei se procuro respostas ou apenas distração.

Esperei pela noite como quem aguarda um ritual. O programa “O Vapor da Meia Noite” chegou com as suas músicas hipnotizantes, envolventes, quase etéreas. Há algo naquele nome que me agrada — vapor. Coisa que se dissipa mas deixa marca no ar.

Deixei-me embalar. Entre uma canção e outra, o pensamento foi ficando mais lento. E, sem resistência, adormeci.

Há dias simples que não pedem mais do que isto: trabalho, música, um livro, e a noite a fechar-nos os olhos com delicadeza.


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