Maré cheia de rostos e sombras que não assustam

Sábado, 28 de Agosto de 1976

O CRM acordou em maré cheia. Excursões chegaram de toda a parte, como se as estradas desaguassem todas ali. Homens de passo pesado, mulheres de olhar expectante, vozes sobrepostas, pedidos urgentes. Não tive mãos a medir. Entre fichas, explicações e a máquina de escrever a marcar o ritmo, fui-me desdobrando. Há dias em que não se pensa — executa-se.

Depois do almoço, o mesmo cenário, implacável. A enchente não dava tréguas. Pessoas vindas de todo o lado, cada uma com a sua história comprimida numa necessidade concreta. Fiz o que pude, com afinco. Quando o corpo já pedia pausa, continuei. Não por heroísmo. Por responsabilidade.

Ao fim da tarde, esgotado, regressei a casa. O cansaço era inteiro, mas honesto. Fechei-me no quarto como quem fecha o mundo lá fora.

Peguei então no livro que, dizem, assusta toda a gente. O livro de S. Cipriano. Li com atenção, à espera talvez de um arrepio, de um sobressalto. Nada. Não me impressionou. Achei até algumas passagens forçadas, como se o medo precisasse de exagero para convencer. Talvez o verdadeiro medo seja outro — mais discreto, mais quotidiano. Não vive em invocações nem em fórmulas antigas. Vive nas perdas, nas decisões difíceis, no que não controlamos.

Foi, afinal, apenas mais um livro.

A noite caiu serena. E eu, cansado mas firme, senti que sobreviver a um dia assim também é uma pequena vitória. O mundo pode encher-se de vozes e pedidos; no fim, é no silêncio do quarto que me reencontro.


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