Bandeiras ao vento no pó das minas
Domingo, 29 de Agosto de 1976
Hoje o dia não foi apenas vivido — foi encenado.
Logo pela manhã, a família inteira se aprontou como se fosse para uma romaria laica. Não íamos rezar, íamos representar. As minas esperavam-nos, silenciosas e imponentes, com os seus edifícios de pedra cansada e janelas que já viram mais miséria do que esperança. Ali ficámos, à espera de ordens, como figurantes de uma história maior do que nós.
E depois começou.
Chamaram-nos para engrossar a turba. Misturámo-nos na massa humana que haveria de dar corpo à manifestação. As bandeiras ergueram-se como se quisessem rasgar o céu. As vozes ecoaram pelos recantos de ferro e pó, devolvidas pelas paredes antigas dos escritórios ocupados. Havia um entusiasmo estranho no ar — uma revolução coreografada, mas sentida. Não era bem teatro, também não era bem realidade. Era qualquer coisa no meio. E isso bastava.
As cenas desenrolavam-se tendo como pano de fundo os edifícios das minas, imóveis como sentinelas de um tempo que não perdoa. A ocupação era representada com punhos cerrados e palavras de ordem que subiam firmes, quase orgulhosas. Por momentos, esquecia-se que havia uma câmara a filmar.
O desfecho aconteceu no Alto do Gódeo — aquele monte imenso de resíduos arrancados às entranhas da terra ao longo de décadas. Um amontoado de desperdícios que se tornou palco. Ali desfilámos, bandeiras bem altas, punhos erguidos, vozes a clamar vitória como se o futuro estivesse já ali, ao alcance da mão. O pó levantava-se sob os passos, misturando-se com a luz do entardecer.
As filmagens prolongaram-se até o sol se cansar de nós. Quando a noite começou a cair, dispersámos. Cada um regressou à sua casa, trazendo consigo uma estranha sensação de missão cumprida — revolucionários por um dia, actores sem palco fixo.
Não sei se mudámos o mundo. Provavelmente não. Mas naquele monte de escórias, com o vento a bater nas bandeiras e a garganta rouca de tanto gritar, houve um instante em que acreditámos que sim.
E às vezes é isso que basta.
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