A solidão tem duas faces

Segunda-feira, 30 de Agosto de 1976

Há dias que não fazem ondas. Limitam-se a existir. Este foi um deles.

A manhã levou-me para a cave do CRM, para aquele arquivo que cheira a papel velho e a pó acumulado — como se o tempo ali tivesse decidido não avançar. Procurei fichas, alinhei nomes, pus ordem em histórias que não eram minhas. Há qualquer coisa de quase sagrado nesse gesto de organizar a memória dos outros enquanto a nossa fica em suspenso.

O trabalho era pouco. E quando o trabalho é pouco, o pensamento cresce. Subi para os escritórios. Estava sozinho. A solidão tem duas faces: ou nos pesa, ou nos dá espaço. Neste dia deu-me espaço — e uma máquina de escrever à frente.

Já tinha experimentado antes, mas nunca com tempo. Sentei-me como quem se senta diante de um espelho novo. A máquina impõe respeito: cada tecla é um compromisso, cada erro fica gravado. Transcrevi a carta para a Aida, resposta à que ela me enviara. Cumpri a tarefa. As palavras saíram direitas, alinhadas, quase elegantes.

Mas vazias.

Não foi a máquina que falhou. Fui eu.

Houve um tempo em que eu escreveria como quem sangra. Agora escrevo como quem cumpre. O rapaz que se incendiava em cada frase parece ter aprendido a poupar fósforos. Não sei se é maturidade ou cansaço. Talvez seja apenas uma forma discreta de defesa. Quando se escreve pouco, dói menos.

Valeu o esforço técnico. Não valeu o conteúdo. E reconhecer isso é mais desconfortável do que qualquer erro ortográfico.

De tarde refugiei-me no habitual: leitura, música, treino de artes marciais. O corpo cumpre quando o coração hesita. No treino, pelo menos, cada movimento tem intenção. Ali não há frases mornas: ou se executa, ou falha-se.

A noite caiu sem dramatismo. Como uma porta que se fecha devagar. Avançou sem ânimo, é verdade. Mas também sem tragédia. Às vezes não é preciso que o dia seja grande. Basta que não nos traia.

E no meio desta rotina silenciosa, há um dado curioso: quanto mais organizo ficheiros e aprendo a dominar a máquina de escrever, mais me afasto daquele adolescente que escrevia por impulso. Talvez estejas a atravessar uma ponte, António. As pontes não são belas nem emocionantes. São estruturas de passagem.

E atravessar também é um acto de coragem — ainda que ninguém aplauda.


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