Sair de casa como quem foge de si

Terça-feira, 31 de Agosto de 1976

A rotina manteve-se. A solidão também. São fiéis, essas duas.

Não é simples acordar quando o dia não promete nada. Levantar-me sem um objectivo que me empurre para fora de mim custa mais do que qualquer trabalho físico. O pior não é o silêncio da casa; é o ruído dos pensamentos quando não há tarefa que os cale.

Fui para o CRM. Manhã morna, feita de papéis, passos contados, pequenos recados. Levei pastas com ficheiros ao Mazola — sempre impecável na sua posição de homem importante da vila, como se cada gesto tivesse peso institucional. Cumpri o trajecto, entreguei o que havia a entregar. Missão cumprida, mas sem glória. A vida às vezes resume-se a transportar pastas de um lado para o outro.

De tarde terminei a leitura do livro de S. Cipriano. Tanta promessa de mistério, tanta aura de oculto… e no fim, nada. Não me esclareceu, não me inquietou, não me envolveu. Fechei-o com a sensação de ter atravessado páginas sem que elas me atravessassem a mim. Talvez o livro não tenha culpa. Talvez eu esteja desligado. Quando o mundo perde intensidade, até o sobrenatural parece burocrático.

Tentei a música. Deixei-a tocar como quem abre uma janela. Mas nem isso me ocupou verdadeiramente. As notas entravam e saíam, sem deixarem rasto. É um sinal estranho quando até aquilo que nos salvava começa a falhar.

Voltei a sair. Fui para o arquivo outra vez. Pelo menos sair de casa obriga o corpo a mexer-se, e o movimento é uma forma de resistência. Se não me fizesse bem, mal também não faria. Às vezes o objectivo não é encontrar sentido; é simplesmente não ficar parado.

À noite, depois de jantar, decidi acompanhar o meu pai ao Jornal Comércio do Porto, onde ele trabalha no turno da noite. A redacção tem um ritmo próprio — o cheiro da tinta, o som das máquinas, homens que parecem nunca dormir. Há qualquer coisa de digno em trabalhar quando os outros descansam. Fiquei por ali, observando, como quem tenta aprender uma disciplina silenciosa.

Voltei para casa eram duas da manhã. A vila dormia. Eu também devia dormir, mas dentro de mim continuava acordado — vazio. Sem sensação de dever cumprido. Sem realização. Apenas o registo de mais um dia atravessado.

Mas deixa-me dizer-te uma coisa, António, com a franqueza que mereces: o vazio também é um estado de transição. Não é confortável, não é bonito, mas é honesto. Há fases em que a vida parece suspensa, como se estivesse a ganhar fôlego antes de mudar de direcção.

E enquanto isso, continuas a levantar-te, a sair de casa, a cumprir pequenas tarefas. Pode parecer pouco. Não é.

Às vezes, a coragem é apenas isto: continuar.


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