O inevitável
Sexta-feira, 13 de Agosto de 1976
A manhã foi passada no CRM, mas não na parte luminosa do edifício. Desci à cave. Escura, suja, húmida. O ar pesado, quase colado à pele. O arquivo organizado amontoava-se pelo chão, ocupando cada espaço livre, porque móveis não havia. Pastas encostadas às paredes, caixas empilhadas, papéis que pareciam respirar mofo.
Havia ali uma sensação de abandono que contrastava com o cuidado que eu tentava pôr na arrumação. Organizar naquele cenário era como tentar impor ordem no meio de um naufrágio. Ainda assim, continuei. Talvez por teimosia. Talvez porque, quando tudo à volta parece desordenado, a única forma de resistir é criar pequenas ilhas de estrutura.
Mas a verdadeira desordem do dia ainda estava por vir.
De tarde, depois de almoçar, o meu pai surpreendeu-me. Levou-me com ele ao Porto. Visitámos antigas empresas onde ele tinha trabalhado. Falou com conhecidos, perguntou, explicou. Procurava arranjar-me emprego.
Não foi uma surpresa agradável. Senti o chão fugir-me debaixo dos pés. Cada conversa era como um prego discreto a fechar a tampa dos meus planos. Ali, entre escritórios e olhares avaliadores, os meus sonhos de continuar no liceu começaram a esbater-se. Não houve discussão aberta, nem palavras duras. Houve algo pior: a evidência silenciosa de que a vida prática se impõe.
Percebi que, para o meu pai, aquilo era cuidado. Responsabilidade. Futuro assegurado. Para mim, era o possível fim de um caminho que ainda nem tinha começado verdadeiramente.
Regressámos a casa. O trajecto pareceu mais longo do que o habitual. Dentro de mim havia uma turbulência constante, como se todos os pensamentos falassem ao mesmo tempo. Não passou com o cair da tarde. Não se dissipou com o silêncio do quarto.
Afundei-me num livro. Não sei qual era. Não sei o que dizia. Apenas precisava de um ponto fixo onde pousar a mente. Ler não era prazer naquele momento — era refúgio. Uma forma de impedir que a realidade ocupasse todo o espaço.
Há dias em que a juventude termina um pouco, mesmo que ninguém o declare oficialmente.
E hoje senti, pela primeira vez com clareza, que crescer pode ser isto: aceitar o inevitável enquanto o coração ainda protesta.
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