A amizade e os desamores
Quinta-feira, 12 de Agosto de 1976
A manhã levou-me novamente ao CRM. O arquivo já me conhece as mãos. Pastas abertas, nomes alinhados, datas corrigidas. O trabalho avança devagar, mas avança. Há uma espécie de dignidade nessa persistência. Não é tarefa gloriosa, não dá aplausos, mas ensina disciplina. E a disciplina, ainda que aborrecida, constrói carácter.
Enquanto organizo vidas passadas, penso nas vidas presentes. Nas que ficam. Nas que partem.
De tarde, depois de almoçar, regressei à música. O gravador tornou-se cúmplice destes dias de Verão. Escolher canções, esperar o momento certo, gravar. A música tem o dom de preencher os intervalos da alma. Às vezes anima, outras vezes apenas acompanha. E há dias em que isso basta.
Mais tarde, como tem sido hábito, voltei aos livros. Abrir um clássico português é como entrar numa casa antiga: há pó, há sombras, mas também há verdade. Garrett fala de paixão como quem a conhece por dentro. Camilo não perdoa ilusões. Eça observa com ironia quase cruel. Todos eles parecem saber que o coração humano é terreno instável.
E foi talvez por isso que, ao cair da noite, dei por mim a reflectir sobre a amizade e os desamores. A amizade é abrigo. Não exige palco nem declarações grandiosas. Está. Permanece. É mão firme no ombro quando o resto vacila. Já os desamores… esses ensinam de outra maneira. São professores severos. Arrancam-nos certezas, deixam-nos expostos, obrigam-nos a crescer à força.
Hoje percebo que ambos são necessários. A amizade sustém-nos. O desamor molda-nos. Um dá-nos chão; o outro dá-nos profundidade.
O dia terminou sem acontecimentos extraordinários. Mas houve este pensamento claro: a vida não se mede apenas pelo que nos acontece, mede-se pelo que aprendemos com o que nos acontece.
E eu continuo a aprender. Mesmo nos dias iguais.
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