Companhias que não falham

Quarta-feira, 11 de Agosto de 1976

A manhã foi passada no CRM. O arquivo continua a crescer e a resistir. Organizar papéis antigos é tarefa paciente, quase monástica. Há sempre mais uma pasta, mais um nome, mais uma data que exige atenção. Parece não ter fim à vista — e talvez não tenha mesmo. Mas há uma estranha serenidade nessa repetição. Como se cada ficha arrumada fosse uma pequena vitória contra o esquecimento.

Os nomes dos mineiros sucedem-se. Homens que desceram à terra todos os dias e cuja vida cabe agora numa folha dactilografada. Às vezes detenho-me num apelido, imagino um rosto, um gesto, uma casa humilde ao fim da jornada. Depois volto ao trabalho. Não se pode viver só de imaginação — mas também não se vive sem ela.

De tarde, depois de almoçar, regressei ao meu quarto e ao ritual do gravador Blaupunkt. Há qualquer coisa de solene naquele aparelho. O clique dos botões, o rodar da cassete, a expectativa do momento certo para gravar sem ruídos nem vozes de locutor. Construo assim as minhas próprias colectâneas, como quem edifica pequenas ilhas sonoras para quando o mar se agita.

Ao fim do dia, deixei a música repousar e voltei aos livros. Tenho-os em número considerável, e a maioria são autores clássicos portugueses — Garrett, Herculano, Camilo, Júlio Dinis, Pessoa, Eça… Estão ali como velhos conhecidos. Cada um com a sua voz, o seu tempo, as suas obsessões.

Ler é uma excelente companhia. Não questiona. Não exige explicações. Não abandona a meio da frase. Está sempre à espera, exactamente onde a deixámos. Talvez por isso me sinta mais seguro entre páginas do que entre pessoas. Os livros não prometem o que não podem cumprir.

A noite chegou sem sobressaltos. Mais um dia aparentemente igual aos outros, feito de ordem, música e leitura. E, no entanto, cada dia acrescenta uma camada invisível ao que sou.

Devagar também se cresce. Mesmo quando nada parece acontecer.


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