A solidão não faz barulho

Terça-feira, 10 de Agosto de 1976

Mais uma manhã de férias. O calor já conhecido, a luz a entrar pelas frinchas, o tempo estendido como um lençol ao sol. Liguei o gravador e deixei que a cassete — gravada por mim nos dias anteriores — tomasse conta do silêncio. Escolher as músicas, alinhá-las, carregar no botão vermelho com solenidade quase religiosa… há nisso uma pequena forma de poder. Somos nós que decidimos a banda sonora do dia.

A música aligeirou a manhã. Não curou nada, mas distraiu. E quando se está sozinho, distrair é uma arte de sobrevivência. Sem companhia, qualquer tarefa serve: arrumar papéis, mexer em livros, rever apontamentos, limpar o pó onde ele nem sequer se vê. O importante é manter as mãos ocupadas para que a mente não se aventure por corredores onde ecoa demais.

A solidão não faz barulho. Mas espreita.

De tarde, depois de almoçar, voltei ao CRM. O arquivo estava agora mais organizado. Pastas alinhadas, nomes etiquetados com cuidado. Havia ali qualquer coisa de justo naquele trabalho: devolver ordem às histórias de mineiros antigos, homens que passaram a vida debaixo da terra e que agora sobrevivem em folhas amarelecidas. Ao tocar naquelas fichas, sentia que lhes dava uma segunda respiração. Como se o passado não estivesse totalmente morto enquanto alguém o lê.

Regressei a casa com essa sensação discreta de dever cumprido. E, como quem regressa a um ritual, voltei à rotina de gravar música. O rádio como janela, o dedo atento ao momento certo para premir o botão. A música é uma excelente companhia — não exige conversa, não julga silêncios.

Até que começou a tocar Alone Again (Naturally).

Há canções que não pedem licença. Entram. Instalam-se. E mexem no que julgávamos arrumado. As primeiras notas bastaram para abrir gavetas que eu tinha fechado com cuidado. Memórias antigas regressaram em força. Situações, rostos, promessas não cumpridas. Emoções que eu acreditava já diluídas no tempo reapareceram com uma nitidez quase cruel.

Há feridas associadas a memórias que, apesar de cicatrizadas, continuam sensíveis ao toque. Não sangram, mas doem. E a música tem dedos finos.

Fiquei ali, imóvel, a ouvir até ao fim. Não desliguei. Talvez porque fugir seria admitir fraqueza. Talvez porque, no fundo, precisamos de sentir para confirmar que ainda estamos vivos.

O Verão continuava lá fora, indiferente. Dentro de mim, porém, o dia tinha ganho outra densidade.

Há canções assim. Não são apenas músicas. São espelhos.

Sozinho outra vez (Naturalmente)…


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