Fuga voluntária para dentro das páginas de um livro
Segunda-feira, 9 de Agosto de 1976
A manhã nasceu sem pressa e eu deixei-me ficar nesse compasso manso. Depois do pequeno-almoço, sentei-me com um livro diferente nas mãos. Desta vez não quis filosofia nem poesia — quis crime, sombras, detectives de sobretudo amarrotado e ruas húmidas onde ninguém é totalmente inocente. Talvez precisasse de fugir à minha própria rotina, trocar a minha vida previsível por enredos onde cada gesto esconde um segredo.
Li com avidez. Havia qualquer coisa de libertador naquele mundo de pistas e suspeitas. Ali, os problemas tinham método, as angústias conduziam a uma solução, e no fim havia sempre uma revelação — coisa que a vida raramente concede. Só voltei à realidade quando a voz da minha mãe me chamou para almoçar. A literatura tem esse poder: sequestra-nos sem pedir resgate.
De tarde acompanhei o meu pai ao Porto. Ele seguiu o seu caminho; eu fiquei na biblioteca. E ali, entre estantes altas e silêncio respeitoso, senti-me em casa. Livros novos com cheiro a tinta fresca, livros antigos com lombadas gastas como se tivessem atravessado gerações de mãos inquietas. Percorri títulos ao acaso, abri páginas, li parágrafos soltos como quem prova frutos num mercado. A biblioteca não exige nada — oferece tudo.
No regresso a casa, trouxe comigo mais do que livros. Trouxe a sensação de que há mundos suficientes para não nos sentirmos pequenos. Voltei a mergulhar na leitura como quem regressa ao mar depois de uma breve saída para respirar. E assim fiquei, submerso em histórias alheias, até que a noite me tocou no ombro.
Quando dei por mim, o dia tinha acabado. Não houve grandes acontecimentos, nem revelações dramáticas. Mas houve essa fuga voluntária para dentro das páginas — e isso, às vezes, é o bastante.
Há dias assim. Corriqueiros por fora, decisivos por dentro. Talvez este tenha sido um deles.
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